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“Open Innovation” Como aproveitar as ideias alheias

 

Por: Know Now
Publicado em: 20, Abril de 2011

In Jornal de Notícias

Há um novo paradigma para a inovação nas empresas que está ainda a dar os primeiros passos em Portugal. Chama-se “open innovation” e leva as empresas a partilharem e a abrirem as portas às ideias do exterior. As vantagens compensam as desvantagens, diz quem aplica este processo, sobretudo quando se sabe que em vez de um gabinete, a empresa tem “o mundo” a contribuir com as suas ideias.

Parcerias com universidades que levam à integração dos alunos nas empresas, criação de “websites” onde é possível partilhar e receber ideias do mundo exterior ou lançamento de programas que permitem a criação de protótipos são formas que a ‘open innovation’, ou inovação aberta, pode assumir.

Este é um novo modelo de inovação que está a dar os primeiros passos em Portugal e que já é considerado um novo paradigma para os processos de inovação empresarial. Já não se trata apenas de criar gabinetes de investigação e desenvolvimento dentro das empresas, que trabalham exclusivamente com recursos internos, mas abrir as portas da empresa à inovação exterior.

A EDP Inovação é um das excepções à regra em Portugal. Aplica o modelo desde 2007 e sabe, por experiência própria, o que uma grande empresa tem a ganhar com os contributos e ideias que podem vir do exterior. “As melhores ideias para a EDP estão pelo mundo”, resume Venceslau Parreira, responsável pelo IPOP (Inovação em Produto, Organização e Processos) da EDP. Ou seja, em vez de ter um gabinete com um pequeno número de pessoas a criar e lançar ideias, tem o mundo inteiro a dar contributos à EDP sobre formas de melhorar aspectos como, por exemplo, a eficiência energética ou a criação de novos equipamentos.

A EDP Inovação tem não só um “site”, o Co-creation (www.cocreation.pt) – onde qualquer pessoa com interesse na área da energia pode registar-se, enviar propostas e participar em fóruns de discussão -, mas também o chamado FabLab (www.fablabedp.edp.pt), que é um laboratório num espaço físico onde são disponibilizados computadores e equipamentos industriais e tecnológicos que permitem a criação de protótipos e o mapeamento de ideias.

“Expomos o que fazemos, lançamos desafios e partilhamos iniciativas com os parceiros”, é uma frase de Venceslau Parreira que resume o que é a “open innovation”. Em termos académicos, Stefan Lindegaard, um empreendedor dinamarquês que publicou recentemente o livro “The Open Innovation Revolution” e que é consultor de empresas para a área de inovação, explica que este modelo de inovação assenta na combinação de recursos internos e externos e no desenvolvimento de oportunidades de inovação que este processo pode criar.

Por exemplo, as empresas têm habitualmente parceiros com quem trabalham frequentemente e estão interessados em melhorar ou, mesmo, expandir as suas ofertas. Uma das formas de aplicar a “open innovation” é trazer esses parceiros para dentro da empresa e trabalharem em conjunto.

A Brisa é um dos outros casos excepcionais que aplica a “open innovation” em Portugal. Tudo partiu de um desafio: melhorar a cobrança e a segurança nas portagens. Em vez de tentar resolver o problema internamente, a Brisa resolveu abrir as portas da empresa às universidades e, trabalhando em conjunto, encontrou as soluções de portagens para que a empresa possa, actualmente, oferecer em alternativa as portagens electrónicas.

Desta forma, a empresa responde à necessidade de aumentar a inovação e a rendibilidade, tudo isto sem ter de crescer verticalmente. “Por termos novas áreas de actividade na Brisa e não querermos crescer muito, criámos uma rede de partilha de ideias”, diz Sales Gomes, presidente da Brisa Inovação e Tecnologia.

Vantagens e desvantagens

O processo de “open innovation” pode ser muito vantajoso para a EDP Inovação ou para a Brisa Inovação e Tecnologia, mas “nitidamente, não é a melhor estratégia de negócio para todas as empresas”, explica Aurora Teixeira, investigadora da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, referindo-se às conclusões de um estudo que realizou em conjunto com Mariana Lopes, também da FEUP, sobre a “open innovation” em Portugal.

“Estar envolvido em parcerias implica custos e tempo”, afirma Aurora Teixeira. Numa empresa de maior dimensão, o cálculo custo/benefício pode revelar-se muitas vezes compensador, mas nas empresas de menor dimensão o caso pode não ser assim. Além da dimensão da empresa, o sector em que actua também é determinante quando se fala de adoptar a “open innovation”, visto que o processo pressupõe a partilha de muita informação, acabando por tornar públicos elementos preciosos sobre a estratégia da empresa. Numa farmacêutica, por exemplo, a partilha de informação na fase de desenvolvimento de um medicamento pode ser prejudicial para a empresa, podendo resultar em fugas de informação.

Além disso, a “open innovation” depende muito da “capacidade que as empresas têm para gerir as suas relações”, acrescenta Aurora Teixeira. Para a Brisa Inovação e Tecnologia, este risco de “perder para terceiros a ideia dos produtos” é ofuscado pela relação de confiança que a empresa tem com os parceiros, explica Sales Gomes, acrescentando que “as desvantagens [da "open innovation"] surgem quando há falhas de comunicação”. Já a EDP Inovação considera que o risco de perder as ideias para o exterior existe, mas há mais a ganhar porque há muito mais fora da empresa do que dentro, afirma Venceslau Parreira. “O risco é compensado com o que se pode ganhar”, resume.

Do ponto de vista da EDP Inovação, outra vantagem que a “open innovation” traz é a possibilidade de contaminação a outras empresas no país, não só aquelas com as quais a EDP Inovação lida directamente. “Faz sentido abrir [as portas] para tirar mais benefícios”, conclui Venceslau Parreira. A Brisa Inovação considera que “a grande vantagem de trabalhar em rede é que os parceiros já nos conhecem bem, têm boas ideias para o negócio da empresa e ajudam a melhorar as soluções para a Brisa”, defende Sales Gomes.

“Open innovation” ainda é excepção em Portugal

A “open innovation” é um modelo de inovação que “pode funcionar muito bem para umas empresas e muito mal para outras”, explica Aurora Teixeira, da Faculdade de Economia da Universidade do Porto. A professora retira esta conclusão de um estudo que realizou junto de 70 empresas portuguesas.

“Concluímos que, dentro da amostra de 70 empresas portuguesas com dinâmicas de inovação relativamente importantes, cerca de um quarto implementam a “open innovation” na sua estratégia de inovação”, pode ler-se no estudo realizado em por Aurora Teixeira e por Mariana Lopes, outra investigadora da FEUP. “Pode dizer-se que em Portugal há uma ideia conservadora sobre a “open innovation”, diz Aurora Teixeira, referindo-se ao estudo.

“Em regra, no caso português, temos uma forte ênfase na absorção”, diz a investigadora, explicando que a tendência, em Portugal, é que as empresas procurem usar tecnologias criadas fora da sua empresa e não usar as tecnologias excedentárias que têm para partilhar com outras. Isto torna o modelo de inovação português relativamente fechado quando comparado com países onde o desenvolvimento tecnológico é avançado.